sexta-feira, 27 de julho de 2012

O Sono Eterno





O leito ao qual eu deitava todas as noites para descansar, agora me abraça de uma só vez, sinto que meus pés não voltarão a tocar a terra novamente. Estou deitado a muitas luas, muitos dias.
A doença corrói meu corpo, minha mente e minha alma. Pedi a Deus para que me levasse logo, o sofrimento é muito, mas, pior que o sofrimento, é ver minha esposa e filhos sofrerem junto de mim, ao pé da cama. Minha voz é fraca e estou muito debilitado. Os médicos visitam minha casa todos os dias, são homens bons, inteligentes.
Não deposito minha vida nas mãos deles, acredito que a ciência para qual estudaram, ainda não pode resolver problemas tão graves, talvez como esse meu. Hoje acredito no médico dos médicos. Nunca fui à igreja, seja ela qual for. Mas o mundo de hoje esta evoluindo cada vez mais rápido, as pessoas falam mais sobre religiões. Então sempre estive ouvindo histórias de pastores e muitos fiéis da casa de Deus, seja aqui ou acolá.

Agora, preso à minha própria cama, vejo o quanto errei ao deixar o convite de Deus passar frente a mim e não tê-lo pego. Mas as dificuldades que passo agora, mesmo no leito de morte, ainda servem como aprendizado.
Há dois dias um anjo está ao lado de minha cama. Ele é semelhante a um homem, mas de esplendor divino. Com as asas sempre recolhidas, olha-me com sorriso bondoso. De corpo fulgido, meus olhos ofuscam-se ao olhar para ele por muito tempo. Ainda não nos falamos, não é chegada a hora, eu sei, e ele também sabe. Apenas eu, sou capaz de vê-lo.
Sinto minha respiração pesada. Hoje me sinto diferente dos outros dias, estou impaciente. Muitos pensamentos me vêm à cabeça. Lembrei de minha infância, e meus falecidos pais. Oh Deus, como eles eram bons. Não consigo conter minhas lágrimas, olho para o anjo e ele chora por mim, acho que talvez ele possa ver meus pensamentos. Por muitas vezes blasfemei o nome de Deus, perguntava por que havia levado meus pais. Neste momento vejo o quanto fui rude e ignorante, peço-te perdão oh pai, mesmo velho e considerado sábio, vejo que não sei tanta coisa assim.
Apenas peço-te que cuide de minha alma, pois vejo que meus dias nesta terra estão chegando ao fim.
Meus pensamentos são interrompidos pela minha esposa e filhos, que entram no quarto. Hoje é domingo, e esta na hora do almoço. Como todos os dias, minha linda esposa vêm me alimentar no leito. O mesmo prato e colher, a mesma sopa de todos os dias. Tenho dificuldades de ingerir alimentos. Que saudade tenho de comer uma maça bem vermelha, tira-la ainda da árvore. Tudo isso se foi, não posso mais fazê-lo. Alimento-me com um pouco de dificuldade, logo minha esposa retorna aos seus serviços.
Ela é uma boa mulher, sempre nos amamos. Vejo em seu olhar, a angustia e a tristeza. Minha situação esta fazendo muito mal a ela.
Algumas horas se passam, e meu quarto é invadido por meus familiares. Meus irmãos e irmãs, primas e primos, minha esposa, filhos e até mesmo alguns tios meus. Meu coração dispara, fico emocionado e mesmo sem querer, minhas lágrimas rolam sobre minha face, sinto que é a última vez que os vejo. Alguns deles também choram, afinal, meu estado de saúde não esta nada bem. Talvez eles também saibam que “já estou de partida”.
Um ímpeto irrompe meu peito, sinto minhas últimas forças, olho para o anjo, ele toma uma posição apreensiva e diz:
— Está na hora. Diga Adeus aos seus familiares.
Olho para meu filho, já homem formado, educado. Minha filha, uma linda mulher.
Estendo a mão para ambos. Eles seguram com firmeza e choram diante de mim. Peço para que peguem a bíblia encima da estante do quarto. A bíblia que sempre ficara aberta no livro de Salmos, mas que nunca foi lida e estudada por ninguém da casa.
Olho para todos do quarto e digo:
— Só existe um livro, e é este!
Inevitavelmente, todos choraram, menos eu. Olhei para cada um e prossegui com meu discurso.
— Não chorem, nem se aflijam por mim, porque não tenho medo. Vou dormir em Jesus e no dia da ressurreição, vê-los-ei outra vez.
Estas foram minhas últimas palavras, palavras tranqüilas e de conforto. Senti vontade de sorrir, e o fiz para o anjo, que sorriu de volta.
Estendeu sua mão aprazível em minha direção e segurou meu punho. Como um piscar de olhos, dezenas de vezes mais lento, fui mergulhado na escuridão, e no momento seguinte acordei em um belo jardim.
Sentei. Como era lindo. O céu azul, sem poluição. Além de mim, havia outras pessoas, todas paradas, como se estivessem esperando alguém, outras pareciam dormir.
O mesmo anjo que estava em minha casa, surgiu de trás de uma árvore, veio até mim e disse-me:
— Agora você deverá esperar aqui, apenas alguns dias. Até a volta de nosso Senhor, para julgar todos aqueles que viveram e vive sobre a face de sua terra, e neste dia, os justos, herdarão os Reinos do céu.
Com essas palavras o anjo voou para além das alvas nuvens.
Caminhei até a beirada do lago de águas cristalinas e deitei-me para contemplar o céu. Não tive palavras para descrevê-lo.
Lentamente meus olhos fecharam-se, senti um sono que não era natural, mas era bom. Cedi e coloquei-me a dormir novamente, para acordar somente no grande dia. O dia em que Jesus voltará.

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