quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Três Soldados Heróis



13 de Abril 1945 — Montese — Itália
O vento frio do sereno não era nada se comparado à vontade de voltar para casa. E para espantar os maus pensamentos ele cantava o Hino de volta. Uma canção ensaiada todos os dias por esse soldado, não por uma obrigação imposta por um Capitão ou Coronel, mas por sua própria vontade. Pois quando ele estivesse voltando para casa, a canção deveria ser cantada perfeitamente. E naquela noite não era diferente:

“Você sabe de onde eu venho?
É do livre desempenho
que cumpri por meu Brasil.
Venho da terra européia
trazendo escrita a Odisséia
na altivez do meu fuzil.
Venho dos campos nevados
onde deixei sepultados
os meus irmãos tropicais,
dormido após a vitória
o eterno sono da glória,
na glória imortal da paz...”

Enquanto o soldado cantarolava sua canção, ele era observado por um amigo, um companheiro de batalha. Distraído em seus pensamentos o amigo não é percebido. Em sua mente as lembranças de casa o faziam sentir o cheiro do café, o abraço da mãe e as brincadeiras com a irmã. Mas tudo isso estava muito longe.
Logo o amigo que observava interrompeu a canção dizendo:
— Decorei toda a música só de ouvir você canta-la todas as noites. — disse ele sorrindo.
— Veja só — respondeu Lúcio sem virar-se para trás — e você dizendo que era ruim para decorar músicas.

— Mas sou — disse o amigo aproximando-se de Lúcio — mas é que essa canção tem algo diferente, ela é... não sei como explicar. Sinto-me como se amanhã todo esse inferno fosse ter um fim. É como se logo pela manhã fossemos voltar pra casa.
— Esse dia não demorara a chegar. Os outros soldados estão dizendo que amanhã tomaremos Montese por completo. Nossa jornada aqui esta acabando caro Cruz. Apenas mais uma batalha nessa cidade e a tomaremos por completo.
— Assim espero Lúcio.
O soldado Cruz nunca fora um bom decorador de músicas, mas a Canção de Volta era algo que ficara gravado em sua mente. Enquanto Lúcio continuava sua canção ele o acompanhava cantando mentalmente.

Lúcio era um homem caseiro, gostava de ficar com família e conversar sobre política. Não era um homem para esgueirar-se nos campos de batalha. Talvez fosse o homem que deveria montar as estratégias de combate, mas não foi esse o destino reservado pela vida.
Durante os meses de guerra que estava vivendo, aprendera muitas coisas, tantas as boas como as más. Ele sempre se questionava se estava perdendo sua humanidade. Tinha medo de se transformar em algo diferente do que já fora um dia.

E naquela noite lá estavam os soldados, Cruz e Lúcio. Enquanto um puxava a música o outro só observava e viajava em seus pensamentos.
Logo outra voz juntou-se a de Lúcio na canção, e não era a voz de Cruz.
Era o soldado Rodrigues. Agora a família de guerra estava formada. Os três soldados eram como irmãos no campo de batalha. Sempre se preocupavam uns com os outros. Os homens do batalhão diziam que eles eram imbatíveis se estivessem juntos. E isso era verdade. Em Monte Castelo eles fizeram uma ótima campanha derrotando dezenas de soldados inimigos.
Com Rodrigues se juntando a cantoria, agora Cruz também se postara a cantar:

♪ “...Você sabe de onde eu venho?
É de uma pátria que eu tenho
no fundo da cicatriz.
venho dos ermos ferinos,
do sopé dos Apeninos,
onde lutei como quis.
Venho do Pó calmo e belo,
do alto do Monte Castelo,
de onde expulsei o alemão.
Venho da frente mais forte,
trazendo, ao vencer a morte,
o Brasil no coração... ♪

Rodrigues era o mais animado deles. Estava sempre sorrindo e contando piadas para alegras os outros. Mas isso não quer dizer que ele não sentia saudade da família ou dos irmãos. Essa era sua arma principal para vencer a guerra que acontecia em seu interior. “Jamais a mente do homem deve se tornar vazia em tempo guerras, pois isso seria uma porta aberta que convida o inimigo a entrar e a roubar o que quiser.” Essa era uma frase típica do Rodrigues. Em sua teoria a mente vazia lhe colocava em duvida e o deixava fraco, preocupado com outras coisas que naquele momento lhe poderia custar à vida. Além disso ele detestava o ato de matar as pessoas, sentia-se culpado e tirar a vida. Mas no campo de batalha não tinha muito que fazer, ou você tirava a vida de alguém ou lhe tiravam a sua.
E naquela noite eles cantaram até de madrugada. E depois foram dormir ouvindo as explosões de bombas ao longe.

14 de Abril 1945 — Montese — Itália
— Saí daí Rodrigues isso vai desmoronar! — gritava Cruz desesperado. Logo pela manhã o acampamento foi atacado por soldados do Eixo. Eles usavam o que podiam para reconquistar o espaço tomado pelos brasileiros. Era a última investida.
Rodrigues era o franco atirador, sempre procurava os cantos mais altos. E em sua preferencia estava as casa com dois ou mais andares.
Um Panzer alemão havia atirado contra soldados brasileiros e um de seus tiros comprometera as ruínas da casa onde estava Rodrigues. Esse por sua vez desapareceu na fumaça e na poeira levantada.
A batalha era decisiva e o avanço eminente.
O Panzer avançava e destruía tudo pela frente. Os outros soldados atiravam em vão na blindagem. Além do canhão mortal a máquina de guerra contava com mais duas metralhadoras MG34 igualmente mortal.
Os alemães avançavam com glória e crentes na derrota Aliada.
Lúcio estava preocupado com o amigo franco atirador. Até aquele momento ele não havia aparecido.
— Temos que para aquele tanque. — disse Lúcio.
— Estou pensando em algo. — respondeu Cruz — Temo que Rodrigues esteja ferido.
— Não se preocupe, me dê cobertura. — acrescentou Lúcio sorrindo.
— O que você esta pensando em fazer?
Cruz nem mesmo teve uma resposta e seu parceiro correu para campo aberto.
Ele corria na direção da casa em ruínas, prestes a desabar. Enquanto corria em socorro do amigo, atirava em alemães. Não se preocupou muito em mata-los, deixaria toda a diversão para Cruz que fazia a cobertura.

Ao entrar na casa a poeira ainda encontrava-se alta, dificultando a visão e a respiração. E tossindo ele subiu as escadas à procura de Rodrigues.
As balas perdidas atingiam as paredes e a escada a sua volta. Mas ele não perdeu a coragem e continuou avançando.
— Rodrigues, cadê você? — gritava Lúcio protegendo os olhos.
Nenhuma resposta.
Ele avançou mais dois lances de escadas até chegar ao último andar.
— Argh... So..socorro — clamava alguém.
O coração do soldado temeu pelo amigo. E ao chegar mais perto pode ver que Rodrigues estava ferido.
— Me acertaram Lúcio. Malditos. Acertaram-me.
— Tenha calma amigo, vou tirar você daqui.
Rodrigues estava baleado, dois tiros. Um no ombro direito e o outro na altura do peito, do lado direito também.
Lúcio não mediu forças e carregou o amigo nos ombros. Era pesado de fato, mas para um irmão de guerra era necessário tirar forças de onde não se tinha.
O soldado ferido gemia de dor e batia os dentes, como se estivesse com frio.
— Tenha calma amigão, logo estaremos a salvo.
Rodrigues apenas sorriu e deu dois tapinhas no traseiro do amigo dizendo:
— Então vamos cavalinho, pra fora daqui.
Enquanto eles caminhavam para fora daquela sala, ouviram passos e vozes. Não era possível ouvir ao certo o que estavam falando, o estrondo das bombas e os tiros impediam distinguir até mesmo a língua falada.
Os dois soldados entreolharam-se assustados.
Lúcio voltou dois passos enquanto Rodrigues sacava o revólver do coldre do amigo.
— Se forem inimigos deixe comigo.
Os soldados que subiam logo chegaram o último andar, e eram alemães.
Foram recebidos “A Bala”.
Dois deles foram mortos imediatamente enquanto os outros quatro recuaram para trás das paredes.
— Estamos presos. — disse Lúcio.
— Rápido, me coloque no chão, vamos lutar juntos.
Os alemães gritavam. Pareciam estar ordenando alguma coisa. Uma rendição talvez.
E como pedido Lúcio fez o desejo do amigo e o colocou no chão. E ali ele ficou encostado na parede. E em sua mão esquerda o revólver, a única arma que tinha.
Lúcio empunhou sua metralhadora, estava pronto.

O silêncio das vozes se fez. Somente o som da guerra era ouvido.
Um dos soldados inimigos revelou-se armado com duas pistolas, ele avançava com desejo voraz. Em seus olhos a sede de sangue pelo seu Fuhrer.
— Morra Alemão desgraçado! — gritou Lúcio disparando sua rajada contra o inimigo que caiu já morto no chão.
Os outros alemães avançaram logo depois e a troca de tiro teve início.
O embate foi mortal e sanguinário.
Um dos soldados inimigos possuía um lançador de míssil. Também conhecido entre os soldados como “Bazuca”. Esse homem fora sábio o suficiente para não entrar na sala, ele permaneceu escondido, até que os tiros sessassem.
Mas antes mesmo que pudesse se levantar fora surpreendido por um brasileiro que ainda subia as escadas. era Cruz, que com uma metralhadora deu cabo da vida do alemão.

Sua cabeça estava perturbada, não havia conseguido manter os alemães longe das ruínas da casa. Temia que o pior tivesse acontecido.
E seus olhos não acreditaram no que viram. Seus amigos estavam mortos e com eles seis alemães.
— Não pode ser, acordem. — dizia ele em choro aos amigos no chão. — Levantem, vocês são fortes, prometemos em voltar juntos para casa.
Um soldado chorando como criança, ajoelhado entre os amigos na esperança de que eles levantassem e fossem embora.
— MALDITA GUERRA! — gritou furioso o soldado.
Ele levantou-se enraivecido e buscou a Bazuca.
— Isso vai dar um jeito naqueles filhos da puta alemães, e principalmente no tanquinho deles.
E ainda com lágrimas nos olhos ele caminhou até a janela estilhaçada, apoiou o armamento nos ombros e mirou no Panzer.
— Adeus idiotas.
Um tiro.
Um sodado caindo ao chão.
A Bazuca escorregava pesada pelo braço.
— Argh... Nã... nã... não pode.... não pode ser.
O soldado Cruz fora atingido por um tiro nas costas. Um ato covarde e traiçoeiro. Praticado por um alemão que resistira aos ferimentos do primeiro embate contra Rodrigues e Lúcio.
O soldado inimigo tentou atirar outras vezes, mas sua munição havia chegado ao fim. Morreria em breve por conta da hemorragia, mas seu fim não fora tão simples assim.
Cruz rastejou até perto do alemão e com sua própria faca avançou contra o inimigo.
Houve resistência e fúria.
Os dois soldados lutavam por seus ideais, não desejavam falhar, morreriam com honra, lutando pelo certo.
Cruz tentou um golpe certeiro no coração, mas foi impedido pelo alemão que lutava com as últimas forças.
O brasileiro estava em vantagem e com mais força e faca deslizou lentamente pela carne alemã até enterrar-se por completo no coração. A vítima urrou de dor e desespero para logo mais encontrar a morte.
Os olhos do soldado fraquejavam e a dor lhe invadia a alma. As forças começavam a faltar e a animo a ir embora.
— Não posso morrer agora.
Então ele rastejou de volta até a janela e com extrema dificuldade postou-se de joelhos. Fez uma força tremenda para levantar a bazuca, e ainda uma força ainda maior para coloca-la sobre os ombros.
O tanque estava longe e difícil de mirar, seria apenas um tiro, uma única chance.
— Que Deus guie meu último tiro, e que ele possa salvar as vidas aliadas de outros amigos. Que a vontade de Deus seja feita nesse momento. Amém.
O pequeno míssil viajou pela rua destruída pela guerra. Abaixo dele os soldados ainda guerreavam pela pátria. E o alvo se aproximava a cada segundo. Até que o encontrou para fazê-lo sumir em uma grande explosão que se fez ecoar por muitos metros. O Panzer estava abatido. Agora os soldados invadiam a rua e avançavam.
Cruz sorriu ao ver o sucesso. Deixou que a arma escorregasse de seus ombros janela abaixo.
Seu corpo caiu ao lado dos amigos e antes de fechar os olhos ele cantou:

“... Venho do chão libertado,
do solo estranho lavado
no sangue de meus irmãos,
da bravura sertaneja,
do Coliseu da peleja,
do rubro altar dos cristãos,
da cruzada americana
para o calor da choupana,
para os verdes estendais,
conquistando após a guerra
o meu pedaço de terra,
terra santa de meus pais...”

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