sexta-feira, 25 de maio de 2018

Romancista como Vocação | A Luta Contra o Coleguismo


Haruki Murakami é um escritor japonês que nasceu em 1949, em Kyoto, Japão. É considerado um dos autores mais importantes da literatura japonesa (mas nem sempre foi assim), também reconhecido em muitos países. Suas obras foram traduzidas para mais de 40 idiomas.

Recentemente terminei a leitura de um dos seus livros: Romancista como Vocação. Nesta obra, Murakami falou muito de sua carreira como escritor, abordou vários temas e nos falou (com detalhes) como foi o início de sua profissão (romancista), de forma simples e quase mística aos olhos do destino.

Haruki Murakami é um tipo de autor que vai na contramão dos outros autores, está fora do padrão, se assim podemos dizer. E isso é incrível, pois temos um ponto de vista completamente diferente do que é ser um escritor (principalmente no Japão, onde Murakami sofreu terríveis críticas), também ficamos por dentro de seu planejamento literário, seus compromissos e responsabilidades.


Em alguns pontos me vi espelhado em Murakami e foi ótimo descobrir que eu tinha práticas em comum com ele. Sei que (para quem leu o livro, ou conhece a vida do autor) pode parecer loucura e descompromissado o jeito que Murakami escreve, contudo, funciona. Está regado de cuidados e estrutura, realmente é uma vida de escritor paralela a que conhecemos.

Muitos autores gostam de planejar seus livros (às vezes muito), fazer anotações em vários cadernos, argumentos, resumos, história pregressa dos personagens etc. Murakami simplesmente pula essas etapas, senta e escreve o que vêm à cabeça. É claro que o livro não sai perfeito logo de primeira, são necessárias várias revisões para modelar o texto de forma geral, por isso, Murakami gosta de escrever sem prazo, no tempo dele, dessa forma ele consegue se dedicar inteiramente a arte de escrever, dando o melhor de si, sem correria ou pressão.

Em diversas passagens, o autor ressalta o quanto ele ama escrever, o quanto esse ato é prazeroso, e no meio disso tudo ele completa dizendo algo bem curioso: que ele escreve para ele mesmo. Um comentário que pode parecer um pouco rude, mas ele explica que também não deixa de pensar no leitor enquanto escreve, mas que não fica preso na seguinte situação: o autor que escreve para o leitor, ou, o autor que escreve o que o leitor quer ler.

Murakami é bem posicionado nessa questão, se escrever lhe dá prazer, é o que ele ama fazer, então ele vai escrever o que ele quer, no prazo dele e assim ele se sente bem. E eu lhe pergunto: “O que há de mal em se sentir bem?”. Murakami levanta muito essa questão durante o livro, e fui obrigado a concordar com seus argumentos.

Tenho vontade de comentar muito mais coisas sobre esse livro maravilhoso que Murakami escreveu, contudo, o texto ficaria ainda maior, logo, eu gostaria de puxar um assunto que você pode interpretar como polêmico, mas eu não poderia deixar isso de lado, de jeito nenhum, principalmente para você que também é escritor.

Murakami começa as primeiras páginas de seu livro abordando um tema delicado: Os Romancistas. Sim, os próprios escritores. A princípio fiquei um pouco apreensivo com o que ele poderia falar, mas ao longo da leitura, pude notar que sua visão sobre muitos escritores é realmente algo relevante a ser notado. Murakami também parece ter o poder de fazer com que você reflita sobre assuntos como esses, com os quais concordei, e muito.

Logo de início ele disse que não podemos considerar os romancistas, pelo menos não todos, sempre íntegros e imparciais. O que é uma verdade. Em sua visão, a grande maioria dos escritores é orgulhosos e cheios de si, com pensamentos que, segundo ele: “o que eu faço e escrevo está certo, todos os outros escritores estão errados em maior ou menor grau, exceto alguns casos especiais”. Sobre esse trecho, acredito que ele realmente esteja certo em ter esse tipo de pensamento, muitos escritores acabam tendo sua própria opinião, seu próprio livro, sua própria história como filhos, tornando-se pais superprotetores a ponto de sentirem dificuldades em aceitarem opiniões alheias sobre sua carreira ou seu trabalho.

Outro ponto interessante ainda abordado na primeira página de seu livro é quando Murakami diz que de vez em quando ouve falar que escritores são muito amigos.

Essa afirmação me deixa com o pé atrás. Não que ele ache impossível uma amizade verdadeira entre escritores, mas ao que parece, essas amizades não podem ser tão fortes assim, ou verdadeiras. Isso porque em sua visão, os escritores são basicamente egoístas, orgulhosos, competitivos e parecem estar sempre em algum tipo de defensiva com os olhos atentos, esperando um ataque sorrateiro. Mas ele aponta um ponto de vista mais glorioso da parte dos escritores, os quais estão sempre de braços abertos para receber aqueles de fora que se aventuram no mundo da escrita. Murakami diz que o inverso é um pouco mais complicado, por exemplo: se o escritor fosse se aventurar no mundo da música ou da pintura, seria recebido com um pouco mais de resistência do que o normal, como se tivesse que realmente provar o seu valor para ser aceito naquele grupo ou nicho.

Já os escritores não ligam tanto se um músico ou um pintor resolverem se aventurar em um romance, ele será bem aceito e inclusive será encorajado a continuar com seu trabalho. Particularmente eu compartilho dessa opinião, sempre que encontro alguém que deseja escrever ou que já começou um livro e ainda está em seus primeiros passos, tento dar uma palavra de motivação ou me coloco à disposição de alguma maneira, contudo, não posso opinar sobre o outro lado da moeda, pois nunca me aventurei profissionalmente no mundo da música ou da pintura para ter que me provar.

Essa amizade entre autores me leva a pensar em outro contexto que vai em oposição a Murakami. Primeiro eu gostaria de deixar bem claro que não sei medir essa profundidade de “amizade verdadeira” ou apenas “alianças”, camaradagem ou coleguismo entre autores, se assim podemos dizer.

O fato que eu gostaria de levantar é: que às vezes, essas “panelinhas” tornam-se tão blindadas que é impossível se envolver no mundo literário profissional. Já pude ver com meus próprios olhos essas coletâneas autorais, onde centenas e centenas de autores dão o sangue para elaborar um texto ou roteiro e fazer parte desse trabalho de coautoria e no fim das contas, são sempre as mesmas pessoas que acabam sendo escolhidas, e isso acontece com tanta frequência que a tal “panelinha” começa a ficar em evidência. Então eu me pergunto: “será que ninguém mais é bom o suficiente para ser escolhido além dessas pessoas, outra vez?”.

Infelizmente o mundo é assim, cheio de injustiças que acabam por desmotivar excelentes autores que estão patinando para se fazer valer no mundo literário. E querendo ou não, o mercado literário acaba ficando com as portas estreitas para novos talentos que estão dispostos a saírem do nada, do anonimato.

Bom, sempre têm um rosto novo aparecendo uma vez ou outra, mas se olharmos bem, veremos que esses novos rostos podem estar atrelados a essas panelinhas, aquelas velhas e boas indicações de um amigo que faz parte daquele nicho blindado, e mais uma vez o coleguismo entra em ação. E agora eu lhe faço outra pergunta: “e o autor que não tem esse privilégio da indicação amiga? O quanto ele precisa se provar para conseguir o seu lugar de destaque, de forma justa?”.

Muitas vezes o autor participa de uma antologia esperando um resultado que pelo menos lhe pareça justo, contudo, no fim das contas ele acaba se sentindo enganado quando confere os resultados e percebe que 80% daquelas pessoas já estiveram na antologia anterior e, além disso, são super entrosados com o organizador nas redes sociais, quando não, na própria vida social fora da internet. Quando isso acontece, o coleguismo faz sentido no fim das contas.

Haruki Murakami nunca se envolveu em “panelinhas” ou nichos blindados, sempre seguiu seu próprio caminho, seu destino, sem se preocupar com o que os outros pensavam ou diziam, fazia o seu trabalho, do seu jeito. Recebeu muitas críticas de pessoas que diziam que o texto dele não era literatura. Que autoridade têm essas pessoas? Uma vez ouvi que esse tipo de “verdade” é variável, ou seja, até mesmo outro profissional da área (crítico) pode ter uma opinião diferente, pode até ser que a grande maioria concorde com essa pessoa, mas sempre terá alguém que vai discordar. Julgar o texto de alguém e dizer que não é literatura, com certeza é deselegante.

Talvez o melhor mesmo seja não se envolver em certos grupos tóxicos. Procure se aliar com quem vale a pena, com alguém que te respeite como semelhante, faça o seu melhor sempre e as pessoas verão o quanto você é esforçado e justo. Muitas vezes as pessoas não veem o seu esforço ou o quanto você sofre, pois você está trabalhando em silêncio, e aos olhos dessas mesmas pessoas, pode parecer que você não está fazendo nada, o que não é verdade.

Com certeza você se esforça muito mais do que parece, é justo e não recorre ao oportunismo descarado. Não é atoa que Murakami diz que a vida profissional de um escritor é solitária, e mesmo assim, ainda nos deparamos com pessoas que querem tirar a sua paz.

Por isso, é indispensável a leitura do livro: Romancista como vocação.

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